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1.Crítica da razão moderna e sua influência sobre a teoria da organização

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Fonte: RAMOS, Alberto Guerreiro. A Nova Ciência das Organizações – Uma reconceituação da riqueza das nações. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1989.

A teoria da organização, tal como tem prevalecido, é ingênua. Assume esse caráter porque se baseia na racionalidade instrumental inerente à ciência social dominante no Ocidente. Na realidade, até agora essa ingenuidade tem sido o fator fundamental de seu sucesso prático. Todavia, cumpre reconhecer agora que este sucesso tem sido unidimensional e, como será mostrado, exerce um impacto desfigurador sobre a vida humana associada. Não é a primeira vez em que, em razão de considerações teóricas, se é levado a condenar aquilo que funciona na vida social prática. De fato, 40 anos atrás Lorde Keynes observou que o desenvolvimento econômico decorreu da avareza, da usura, da precaução – tudo isso coisas que ele desprezava. Concluiu ele, todavia, que “por mais algum tempo” precisavam elas continuar “a ser os nossos deuses” porque “somente elas nos podem fazer sair do túnel da necessidade econômica”. No contexto das precárias condições que se esperava fossem ainda perdurar por algum tempo, Keynes recomendou que se “fizesse de conta, para nós mesmos e para todo mundo, que o certo é errado e o errado é certo; porque o errado é útil e o certo não é” (Keynes, J.M. Economic possibilities for our children. 1932. p. 372).
Tal como Keynes, hoje haverá algumas pessoas que prefiram suspender a crítica à teorial organizacional corrente, porque, embora sendo pobre em sofisticação, ela funciona. Contudo, para fazer isso, é preciso que se finja que a ingenuidade é o certo, enquanto a sofisticação teórica é o errado. Mas num tempo como o nosso, em que a energia psicológica que um indivíduo tem que desprender, para poder enfrentar as tensões resultantes dessa forma de fraude auto-imposta, é de tal magnitude que ele se recusa a ser convencionalmente bem-sucedido e deixa de aquiescer às normas pelas quais a sociedade legitima-se. Nessas circunstâncias, a teoria da organização, tal como é hoje conhecida, é menos convincente do que o foi no passado e, mais ainda, torna-se pouco prática e noperante, na medida em que continua a se apoiar em pressupostos ingênuos.
A palavra ingenuidade é usada aqui no sentido em que a empregou Husserl, que reconheceu que a essência do sucesso tecnológico e econômico das sociedades industriais desenvolvidas tem sido uma conseqüência da intensiva aplicação das ciências naturais. No entanto, a capacidade manipuladora de tais ciências não constitui, necessariamente, uma indicação de sofisticação teórica. Assim, de acordo com Husserl, na medida em que essas ciências admitem como evidente por si mesmo o tipo pré-refletivo da vida cotidiana, ficam elas “no mesmo nível de racionalidade das pirâmides do Egito” (Husserl, E. Phenomenology and the crisis of philosophy. 1965, p. 186).
Em outras palavras, as ciências naturais do Ocidente não se fundamentam numa forma analítica de pensamento, já que se viram apanhadas numa trama de interesses práticos imediatos. É isso, talvez, o que Husserl quis dizer com a afirmação: “Toda ciência natural é ingênua, relativamente do seu ponto de partida. A natureza, que irá investigar, está simplesmente à disposição dela para isso” (Husserl, 1965, p. 85). No fim de contas, as ciências naturais podem ser perdoadas por sua ingênua objetividade, em razão de sua produtividade. Mas essa tolerância não pode ter vez no domínio social, onde premissas epistemológicas errôneas passam a ser um fenômeno cripto-político – quer dizer, uma dimensão normativa disfarçada imposta pela configuração de poder estabelecida.
O presente capítulo é uma tentativa de identificação da epistemologia inerente na ciência social estabelecida, de que a atual teoria organizacional é um derivativo. Meu principal argumento é que a ciência social estabelecida também se fundamenta numa racionalidade instrumental, particularmente característica do sistema de mercado. Concluirei o capítulo indicando o assunto principal do capítulo 2: um conceito de racionalidade substantiva, que ofereça a base para uma ciência social alternativa, em geral, e para uma nova ciência das organizações, em particular.

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2 Respostas para “1.Crítica da razão moderna e sua influência sobre a teoria da organização”


  • jumpsheol / Responder

    interessante o seu texto, queria ter mais conhecimento pra poder fazer um comentario mais critico,achei o seu blog bastante interessante, parabens.


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