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Empowerment: uma abordagem crítica

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Empowerment – uma abordagem crítica Empowerment, em português, significa “dar poder a”. No entanto, no contexto da Teoria das Organizações, empowerment é mais uma “tecnologia”, “modelo”, “técnica” ou até mesmo “modismo” da prática administrativa, recentemente muito popular nos círculos gerenciais. Deve-se atentar para o fato de que empowerment, assim como outras “tecnologias revolucionárias” e “tendências” administrativas, podem ser (e geralmente são) instrumentos de controle, maneiras de legitimar o papel central das organizações econômicas na vida de seus funcionários. “Política Congitiva (…) consiste no uso consciente ou inconsciente de uma linguagem distorcida, cuja finalidade é levar as pessoas a interpretarem a realidade em termos adequados aos interesses dos agentes diretos e/ou indiretos de tal distorção”. (RAMOS, 1989). A política cognitiva é a moeda corrente psicológica da sociedade centrada no mercado. Devemos tomar cuidado para que as mudanças que desejamos implementar nas organizações tenham propósito claro, e que este propósito não seja meramente aumentar a produtividade. No caso do empowerment, por exemplo, deve-se atentar para o fato de que conferir poder aos funcionários é uma forma de aumentar a satisfação e o comprometimento dos mesmos com o trabalho. É também uma maneira de tornar as organizações mais humanas, menos massacrantes, menos opressoras. Se utilizarmos um discurso de valorização do ser humano no ambiente de trabalho, mas apenas como aparência, enquanto a essência permanece inalterada, corremos o risco de contribuir para a degradação da sociedade e da cultura locais. “Não constitui mero incidente o fato de que, em toda sociedade em que o mercado se transformou em agência cêntrica da influência social, os laços comunitários e os traços culturais específicos são solapados ou mesmo destruídos”. (RAMOS, 1989)

Delegação de Poder

Em um renomado livro de Administração, pode-se encontrar a seguinte afirmação a respeito do empowerment: “Um administrador confere empowerment aos outros lhes dando autoridade igual à responsabilidade que lhes é designada”. (ARAUJO, 2006) Afirmar que um administrador pode delegar poder a seus subordinados já é, por si só, uma falácia, pois o poder não pertence à empresa ou aos administradores: “O poder transita pelos indivíduos, não se aplica a eles” (Foucault 1979). Para Foucault, o poder não é algo que se possa possuir. Portanto não existe, em nenhuma sociedade, divisão entre os que têm e os que não têm poder. Pode-se dizer que poder se exerce ou se pratica. O poder, per se, não existe. O que há são relações, práticas de poder. O poder circula.

Pessoas e organizações

Na mesma obra da Teoria Administrativa, pode-se encontrar, como pré requisito para a implementação do empowerment nas empresas, que os funcionários façam “das metas organizacionais as suas metas”. (ARAUJO, 2006) A satisfação das pessoas não pode ser alcançada apenas dentro do âmbito das organizações econômicas. Portanto, qualquer política que pressupõe que a atualização pessoal pode ser equivalente à execução de atividades funcionais, e que busque fazer com que o indivíduo abrace os objetivos da empresa como sendo seus, estará fadada a gerar mais insatisfação no trabalho. “As organizações formais não constituem o cenário apropriado para a desalienação e para a auto-atualização das pessoas”. (RAMOS, 1989). Para Alberto Guerreiro Ramos, o papel dos especialistas em teoria das organizações não consiste em “legitimar a total inclusão das pessoas nos limites das organizações econômicas formais, mas sim definir o escopo [e os limites] de tais organizações na existência humana em geral”. (RAMOS, 1989) A meu ver, as organizações econômicas servem para suprir uma parte da nossa existência (a sobrevivência), mas não podem gerar a satisfação plena dos seres humanos. Somos muito mais do que consumidores e trabalhadores, e não podemos restringir a vida humana a menos do que isso.

Mudanças internas não bastam

“Somente uma visão acrítica das metas organizacionais e da motivação humana pode explicar porque os intervencionistas humanistas se sentem à vontade em suas tentativas, por exemplo (…) de melhorar a cultura humana em complexos industriais poluentes e destruidores dos recursos naturais; de aumentar a eficiência de corporações especializadas em fornecer ao público mercadorias desnecessárias e serviços que apenas servem para destruir gradativamente o senso que têm os cidadãos de suas necessidades genuínas, pessoais. Não questionam eles, explicitamente, o caráter geral desumanizador e enganoso da estrutura de emprego da sociedade centrada no mercado, que em si mesma não permite uma coerente prática do verdadeiro humanismo.[o grifo é do original]”(RAMOS, 1989) Assim, os atuais consultores em administração acabam exercendo um papel de piora na qualidade de vida geral. Olham para a floresta, mas só conseguem enxergar uma ou outra árvore. “Em lugar de pôr a organização econômica formal no centro da existência humana, é necessário que se dê ênfase à questão da delimitação organizacional, da aprendizagem dos meios de facilitar múltiplos tipos de microssistemas sociais (…) transformando a organização econômica formal num enclave restrito e incidental, no espaço vital da vida humana, assim deixando margem para relacionamentos interpessoais livres das pressões projetadas e organizadas”. (RAMOS, 1989).

Autogestão

Muitos autores tentam colocar a autogestão como uma característica do empowerment, mas este é um conceito muito mais abrangente. Autogestão implica na inexistência de uma liderança cristalizada na figura de um chefe, gerente ou patrão. Todos participam das decisões administrativas em igualdade de condições. No empowerment, ao contrário, o que acontece é que os funcionários de uma empresa participam dos processos “meio”, ou seja, da melhoria e otimização da execução de um fim proposto pela cúpula da organização. Trata-se de uma tentativa de integrar a criatividade e a iniciativa operária ao processo produtivo de ordem capitalista (aumento de produtividade e conseqüente extração de lucros). Há um enriquecimento das atividades propostas na medida em que os funcionários vão adquirindo um conhecimento maior para a escolha dos meios de atingir os objetivos propostos. Os funcionários recebem uma dose de auto-organização para a execução de suas tarefas e na determinação dos meios para o alcance de objetivos, porém sem a definição de metas – trabalhador participa apenas no processo de produção, nos meios, NÃO NOS FINS. Em uma organização autogestionária, as decisões fundamentais têm de ser tomadas pelo coletivo. Para isso é necessário que todos tenham acesso às informações, responsabilidade com o coletivo e disciplina. “A autogestão é impelida pelas condições materiais do nosso tempo e não como um amadurecimento de formas anteriores da mesma coisa. O homem que conduz a experiência de sua própria gestão é o homem contemporâneo e não o bárbaro ou selvagem que luta pela sobrevivência. A autogestão é um fenômeno pós-industrial baseado na associação de homens em suas vidas para uma participação maior e mais profunda. Expressa o impulso cultural das massas que querem o controle dos processos de mudança histórica, em vez de delegar este controle para os“poucos educados”. Desta maneira – e se nesse sentido realmente for bem sucedida – a autogestão pode tomar-se a gestão dos processos de mudança histórica”. (CARVALHO, 1983) A comuna de Paris (1871) é encarada como um modelo de autogestão porque os operários nomeavam seus gerentes, seus chefes de oficina e de equipe, fixavam seus salários e horários, podendo demiti-los quando o rendimento não fosse satisfatório.

Bibliografia

ARAUJO, Luis Cesar G. de. Organização, Sistemas e Métodos: e as tecnologias de gestão organizacional. 2ª edição. Editora atlas. São Paulo, 2006. CARVALHO, Nanci Valadares de. Autogestão: o governo pela autonomia. São Paulo: Brasiliense, 1983. FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal: 1979 RAMOS, Alberto Guerreiro. A Nova Ciência das Organizações – Uma reconceituação da riqueza das nações. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1989.

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10 Respostas para “Empowerment: uma abordagem crítica”


  • Luiza / Responder

    Muito boa a crítica, lá no Banco ultimamente só se fala nisso. O meu chefe fala: “Você tem que exercer a função para poder adquirir o cargo!” e assim vai sugando a nossa força de trabalho sem a devida remuneração… Beijos!


  • Pedro Filardo / Responder

    Que chique! Citando Foucault. Creio que estudando um pouco mais o carequinha você veja que não existem mudanças reais [ou possíveis] dentro de qualquer instituição. “Abordagem crítica” pressupõe um certo autor. Vai ler Marx ou vai ficar do lado de fora encaixando um pouco de teoria aonde cabe? Brincar de lego tem os seus limites. Está feito o convite. Lembre-se: pensar é imaginar.


  • Givanildo Silva / Responder

    Já que tudo é pensado em termos de ‘mercado’ e, a alteração deste paradigma é praticamente impossível devido a profundidade de suas raízes e inexistência de alternativa, temos uma solução (determinística): deixar de sermos ingênuos e utilizar os meios disponíveis a nosso favor, se possível ficarmos ricos e cuidar das nossas crianças…


  • Gabriel Dread / Responder

    Caro Givanildo,

    Discordo em gênero, número e grau.
    Está nas nossas mãos mudar o presente paradigma.
    Tenho certeza que muitos dos servos, na época do Feudalismo, também consideravam aquele paradigma impossível de ser mudado. A história provou que eles estavam errados.
    O mesmo pode ser dito da atual situação. Grande parte dos teóricos de Ciência das Organizações resignam-se ou mesmo abraçam o paradigma funcionalista, apoiando assim a sociedade centrada no mercado.
    Mas nem todos. Alberto Guerreiro Ramos foi um cientista que não se curvou ao mercado.
    Em sua última obra, “A Nova ciência das Organizações: uma reconceituação da riqueza das nações”, ele propôs um novo paradima, o paradigma “paraeconômico”, em que o mercado teria sua atuação delimitada dentro de um sistema social muito mais amplo.
    Infelizmente, Guerreiro Ramos falece apenas dois anos após a publicação desta obra, e não pôde levar a cabo tal empreendimento.
    Mas seus escritos estão aí, e fazem coro a muitos outros estudiosos que também apontam na mesma direção:
    a sociedade centrada no mercado é insustentável, e suas falhas puderam ser ignoradas durante muito tempo por conta dos benefícios trazidos por ela. Mas este tempo acabou.
    O contexto atual tem mostrado que o modo como a produção é orientada já não traz os mesmos resultados, e uma revisão profunda em seus pilares já está em curso. Isso se dá notadamente por uma série de fatores: a expansão do mercado atingiu um ponto de rendimentos decrescentes, em termos de bem-estar humano; a degradação da qualidade de vida; a poluição; o desperdício à exaustão dos limitados recursos do planeta; e no que tange à teoria das organizações, a incapacidade de oferecer diretrizes para a criação de espaços sociais em que os indivíduos possam participar de relações verdadeiramente autogratificantes.
    Cabe a nós darmos continuidade a este processo…
    Que tal juntar-se a nós?
    Eu acredito que a existência humana é muito maior do que apenas “sobreviver” e tentar ganhar algum dinheiro. Você está conosco?

    Com amor,
    Gabriel Siqueira


  • Pedro F. / Responder

    Givanildo

    A “profundidade de suas raízes” é exatamente tão rasa quanto o seu discurso de futuro vencedor…

    Boa sorte no “Aprendiz 6”


  • Ricardo / Responder

    "a sociedade centrada no mercado é insustentável, e suas falhas puderam ser ignoradas durante muito tempo por conta dos benefícios trazidos por ela."

    Acredito que as falhas nunca foram ignoradas. Movimentos sociais contestadores sempre existiram.

    "O contexto atual tem mostrado que o modo como a produção é orientada já não traz os mesmos resultados, e uma revisão profunda em seus pilares já está em curso. Isso se dá notadamente por uma série de fatores: a expansão do mercado atingiu um ponto de rendimentos decrescentes, em termos de bem-estar humano; a degradação da qualidade de vida; a poluição; o desperdício à exaustão dos limitados recursos do planeta;"

    O capitalismo se modifica. Veja RSE e novas técnicas de RH.

    http://ricardorabelofilho.blogspot.com/


  • Bruno Vernaglia / Responder

    De fato o atual sistema vigente entrará em colapso cedo ou tarde… pois é louco e insustentável


  • Atojr / Responder

    As pessoas tem que primeiro se esforçarem para a conquista dos seus objetivos.
    Esse negócio de ideologizar, chamar Marx, Foucault, e quem mais for para responsabilizar o capital é velho e onde tentaram foram milhões de mortos.
    Não sou a favor do " estado do bem estar social". Bismarck também enganou com bugigangas muito. Depois dele veio Hitler.
    Só o trabalho e o estudo podem libertar!
    Em todas as épocas sempre existiram ( e existirão) OPRIMIDOS e opressores.Se esse falso humanismo, MARXISTA ou de outra índole desse resultado, o mundo seria um paraíso.


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