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As organizações do movimento alternativo

As organizações do movimento alternativo Maurício Serva* Joseph Huber, sociólogo, economista e professor do Departamento de Ciências Políticas da Universidade Livre de Berlim, fêz uma extensa pesquisa sobre organizações que ele denominou “projetos alternativos” no inícios dos anos 80, na então Alemanha Ocidental. Caracterizando o “movimento alternativo” como uma “explosão de idéias”, Huber (1985) nos dá uma visão suficientemente ampla desse movimento na Alemanha, relacionando as grandes áreas onde tais organizações aparecem: a) Iniciativas civis – surgidas no final dos anos 60, configuram organizações em vários campos de reivindicação, tais como intervenções contra a desarborização, a eliminação de áreas verdes, a demolição de construções antigas, a construção de novos aeroportos, etc.; b) Movimento ecológico, anti-usinas nucleares e pelas tecnologias alternativas – surgido em meados dos anos 70, evolui para o desenvolvimento de tecnologias energéticas alternativas, como a solar, biogás, eólica, e outras; c) Estilos de vida alternativos e crítica ao consumismo – em estreita conexão com o movimento ecológico, ganhou impulso a partir de 1977 e é tributário do grande movimento estudantil de 67/68; d) Movimento de jovens e de idosos – criação de centros de jovens, casas para a juventude, moradias comunitárias para jovens, movimento de alunos secundaristas e de jovens trabalhadores. Surge no final dos anos 60. Mais recentemente, observa-se a fundação de várias organizações de idosos que lutam contra a marginalização, dependência e a tendência da sociedade a considerá-los incapazes de discernimento e julgamento; e) Fuga da cidade e regionalismo – criação de colônias ou comunidades alternativas em áreas rurais, f) Movimento de mulheres e movimento homossexual – o movimento feminista foi o grande pólo de reação contra a sociedade industrial contemporânea, atingindo o seu ápice na segunda metade dos anos 70. Gerou uma infinidade de projetos auto-organizados por mulheres, como grupos de alimentação e saúde, albergues, grupos de cinema, jornais, editoras, livrarias, cafés, oficinas, grupos de teatro e música, dentre diversos outros. Segundo Huber, pode-se dizer que o movimento de homossexuais, aproveitando-se da brecha aberta pelo feminismo, ousou surgir, criando também várias organizações; g) Movimento psicologista, emancipacionista e pró-sensibilidade – movimento que prega que a transformação do sistema passa por uma profunda autotransformação psicológica e também que a idéia de emancipação pessoal é parte da práxis política. Tal movimento fez brotar uma infinidade de organizações que oferecem uma enorme diversidade de serviços no âmbito psicológico: terapias de grupo e individuais, grupos de treinamento, grupos de encontro e autovivência, fortalecimento da percepção sensorial, meditação transcendental, etc.; h) O novo espiritualismo e as seitas religiosas – muito próximos do movimento psicologista, foram criados grupos e redes nessa área, obedecendo a variadas correntes diferentes entre si. O autor opina que a causa do crescimento desse movimento é a crise e a crítica à visão materialista de mundo, que se impôs com a capitalização e industrialização dos últimos séculos; i) Movimentos pacifistas e iniciativas pró-Terceiro Mundo – nascido nos anos 50, o pacifismo na Alemanha cresce gerando organizações que envolvem-se nas questões ligadas às relações Leste-Oeste, enquanto as iniciativas de solidariedade para com o Terceiro Mundo criam organizações que agem sobre políticas de desenvolvimento interessadas nas relações Norte-Sul; j) Movimento pela proteção ou ampliação dos direitos civis – conduzido por organizações do tipo “União Humanista” ou “Terre des Hommes”, que se opõem à limitação dos direitos e liberdades civis; l) Esquerda não-ortodoxa ou espontaneísta – o autor assim considera as organizações inseridas nesse segmento: “O legítimo fenômeno residual do movimento de estudantes e da oposição extraparlamentar do final dos anos 60 […] característico das esquerdas não dogmáticas, tem um grau mínimo de organização e a marcante ‘independência’ dos indivíduos que a compõem. No entanto, apesar de sua coesão, aparentemente fraca, elas formam um campo social relativamente estável, uma rede integrada no espaço alternativo” (Huber, 1985, p.31). Um dos grandes méritos do estudo de Huber, é a realização de um levantamento quantitativo dos “projetos alternativos” na Alemanha. De acordo com o referido levantamento, existiam, na época, cerca de 11.500 organizações, envolvendo diretamente 80.000 pessoas, considerando a estimativa média, ou seja, desprezando as estimativas mais otimista e a mais conservadora. O autor sofistica o mapeamento das organizações, chegando a fornecer a composição percentual dessas organizações por ramo de atividade, da qual apresentamos, abaixo, uma síntese: — 70% das organizações estão no setor de serviços, 18% em trabalho político e 12% em produção de bens; — 71% são ativadas por trabalho considerado “intelectual”, enquanto 29% por trabalho “manual”; — 22% oferecem serviços profissionais, dentre os quais a grande ênfase (11%) são de serviços terapêuticos; — Das 18% classificadas em trabalho político, a grande maioria são voltadas para iniciativas civis (9%) e comitês de cidadãos (8%); — 17% se encarregam de serviços de informação e de relações públicas, com ênfase (9%) em revistas, outras publicações, reuniões, congressos, etc.; — 9% se dedicam a infra-estrutura de lazer, predominando aí bares, cafés, restaurantes, com 4% do total e também centros de convenções, de férias e de comunicações, igualmente com 4%; — 9% encontram-se no ramo da circulação, se destacando o comércio (mercearias, cooperativas) com 4,5% e as livrarias com 3% do total; — 8% participam da indústria de transformação, com maior incidência (5%) das oficinas de reparação e de produção, incluindo padarias, marcenarias, tecelagem; — 8% são organizações do ramo da cultura, incluindo arte, esporte e ciência; — 5% são considerados pelo autor como “serviços de (auto) administração”, aí incluídos os projetos de organização e coordenação, tais como assessorias, associações e networkings; — Por fim, 4% são de organizações vinculadas à produção agrícola. Dando prosseguimento à sua análise de cunho sóciopolítico dessas organizações, Huber enumera uma série de “limites internos” do conjunto delas, abordado pelo autor como um movimento social. O primeiro deles diz respeito à introversão de suas finalidades, não refletindo portanto uma visão econômica globalizante, quando há objetivos dirigidos para fora, estes se reduzem na maior parte à propaganda. Em seguida, o autor aponta o preconceito com a ação empresarial, o “negócio”. Ele explica que, “Tem-se aí um caso irônico de contraprodutividade da ideologia alternativa: ao invés de se avançar o movimento alternativo o mais profundamente possível no setor formal, e, com isto, diminuir a capacidade de pressão do Sistema, fortalecendo o próprio movimento alternativo, ocorre exatamente o contrário” (Huber, 1985, pp.64-65). A ausência, em alguns casos,de competência técnica e de qualificação é também uma característica limitante. No tocante a implementação da autogestão, é digno de destaque o grau de realismo das observações do autor: “Há uma série de inevitáveis problemas de grupo a afetar a autogestão: por exemplo, a hierarquia latente entre os mais qualificados e os mais inexperientes, entre líderes e seguidores, entre personalidades fortes e pessoas afetadas pelo autoritarismo, entre os ‘velhos’ e os ‘novos’ e, ainda, contradições entre formas jurídicas existentes (companhias ltdas., sociedades civis, etc.) e os ideais da autogestão, e, não por último, a dificílima relação entre autodeterminação interna e influências externas, o equilíbrio entre a abertura e a coesão do grupo” (Huber,1985, p.66). Huber enumera sete critérios que deveriam balizar a criação e o funcionamento dos “projetos alternativos”, com vistas a superação desses limites internos: 1) Utilidade social – os projetos necessitam demonstrar claramente que a sua atuação é significativa socialmente, pois o que está em jogo não é simplesmente o “direito ao trabalho” mas, primordialmente, o “direito ao trabalho socialmente significativo”; 2) Autogestão – estabelecimento de uma estrutura de competências e decisões que permite aos membros do grupo participação igual nas decisões e na sua implementação. O autor lembra que autogestão significa também a superação da contradição entre empresário (capital) e pessoal (trabalho), além do autocontrole no desenrolar do trabalho; 3) Propriedade coletiva ou neutralização do capital – para o autor, neutralizar internamente o capital (eliminar a propriedade sobre os meios de produção) é a forma teoricamente ideal para atingir a autogestão, uma vez que o direito vigente oferece possibilidades limitadas para uma socialização ampla do capital; 4) Garantias sociais e salários equilibrados – a continuidade dos projetos dependerá essencialmente da questão dos salários e da segurança social. Dispor apenas do imediatamente necessário para a própria sobrevivência nunca permitiu e nem permitirá uma vida aceitável. Portanto, os projetos devem estabelecer uma estrutura de salários igualitária, e, em seguida, que esta seja correspondente ao nível geral dos salários no conjunto da sociedade; 5) Condições sociais e humanas de trabalho – o trabalho não deverá provocar um stress coletivo, sendo imprescindível o estabelecimento de acordos sobre o tempo normal de trabalho, lazer e férias; 6) Efetividade e produtividade – os projetos devem necessariamente trabalhar a altura da produtividade social, sem o que nada do que foi relacionado acima seria atingido; 7) Cooperação antes da concorrência – a cooperação deve ser buscada dentro e fora da organização, através alianças com outras organizações similares e também com organizações burocráticas. O estudo realizado por Huber é um dos mais completos já produzidos nesse campo. Ainda que decididamente centrado no caso da Alemanha, o autor nos revela a amplitude do movimento alternativo em todo o Ocidente, pois a partir do caso da Alemanha podemos inferir sobre a configuração desse movimento nos demais países ocidentais. Sua abordagem, apesar de pertencer ao campo da ciência política e portanto muito mais direcionado para as questões globais, também envereda por algumas questões internas das organizações, pontos críticos que nos revelam facetas importantes desses grupos. *Maurício Serva é doutor em Administração pela EAESP/FGV de São Paulo e professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Texto extraído de: SERVA DE OLIVEIRA, Maurício Roque. Racionalidade e organizações: o fenômeno das organizações substantivas. São Paulo: EAESP/FGV, 1996.

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