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A Síndrome Comportamental

A síndrome comportamentalista faz com que o indivíduo se comporte como uma engrenagem.

Onde quer que a articulação do pensamento não encontre critérios de exatidão, não existe sabedoria. É por isso que não é fácil para uma pessoa empenhar-se numa conversação no terreno da metafísica, da ética, da estética, sem dominar os respectivos padrões específicos de pensamento e de esclarecimento das matérias.

Por exemplo, aquilo que é conceituado como forma na metafísica, como virtude na moral, como beleza na estética, não é dado à percepção humana da mesma forma que tamanho, forma, extensão e número de objetos.

Não obstante, pode-se argumentar, legitimamente, que imaginar as coisas como formas objetivas é um requisito para a apreensão de sua natureza concreta. Justamente por isso, os julgamentos que dizem que um indivíduo é bom e que uma obra de arte é bela significam que virtude e beleza são objetos reais de uma espécie determinada, não apreendida diretamente pela percepção sensorial imediata

 Alberto Guerreiro Ramos, A nova ciência das organizações (1981, p.56).

Em “síndrome comportamental” a principal preocupação de Alberto Guerreiro Ramos é em realizar uma explicação analítica da base psicológica da teoria organizacional e da ciência social em voga. O autor considera que as organizações são sistemas cognitivos e que seus membros em geral assimilam, interiormente, tais sistemas e assim, sem saberem, tornam-se pensadores inconscientes. Assim, é imprescindível realizar a análise organizacional como um sistema cognitivo sob ponto de vista da abordagem substantiva.


Para isso, Guerreiro Ramos faz a distinção entre dois tipos de conduta:

a) Comportamento: se baseia na racionalidade funcional, na estimativa utilitária das consequências; é uma conduta comum a seres humanos e animais; conveniência é sua principal categoria; funcional, efetivo, pertence à esfera das causas eficientes.

b) Ação: se baseia na racionalidade substantiva; é uma conduta própria dos atores que deliberam sobre coisas porque têm consciência das finalidades intrínsecas; forma ética de conduta; os seres humanos são levados a agir, a tomar decisões e a fazer escolhas, porque causas finais – e não apenas causas eficientes – influem no mundo em geral. A estimativa utilitária incide na ação apenas por acaso.

Sobre o comportamento, Guerreiro Ramos afirma que o próprio uso do termo na língua inglesa é relativamente recente, datando do século XV. Inicialmente “comportamento” era empregado apenas para animais, mas com o advento do Estado Moderno, foi apropriado para o conceito de cidadão como “pessoa que se comporta aos ditames do Estado”.

Desde então, passou a ser empregada também para seres humanos, enquanto seu significado continua o mesmo de quando era aplicada apenas para qualificar animais: quem se comporta está em conformidade com as ordens e costumes ditados pelas conveniências exteriores.

Homens e mulheres já não vivem mais em comunidades onde um senso comum substantivo determina o curso de suas ações. Pertencem, em vez disso, a sociedades em que fazem pouco mais além de responder a persuasões organizadas. O indivíduo tornou-se uma criatura que se comporta (GUERREIRO RAMOS, 1981, p.52).

Definido o sentido de comportamento e apresentadas suas bases históricas, Guerreiro Ramos passa à conceituação de síndrome comportamental como uma disposição condicionada socialmente que afeta a vida das pessoas. A síndrome comportamental faz as pessoas confundirem regras e normas operacionais pertencentes a um sistema social episódico com a natureza das condutas humanas. Trata-se da ofuscação do senso pessoal de critérios adequados à conduta humana, característica de sociedades industriais contemporâneas.

A legitimação de formas episódicas de conduta humana, de acordo com seus precários princípios imanentes, continua, até hoje, a ser um postulado básico da ciência do comportamento, “objetiva”, “livre de valores”. É, pois, compreensível que os que contemporaneamente praticam a ciência do comportamento se vejam, a si próprios, como estudiosos de processos, cuja forma, e não a substância, é o que importa. Para essas pessoas, a síndrome comportamentalista é uma premissa, e questioná-la não tem sentido (GUERREIRO RAMOS, 1981, p. 62).

As principais características da síndrome comportamental são: a) a fluidez da individualidade; b) o perspectivismo; c) o formalismo; d) o operacionalismo positivista.

A fluidez da individualidade

Criados peio homem, os valores não são perpétuos, imutáveis e inequívocos… a natureza humana é fraca e inconstante, num estado de eterno fluxo, suspensa entre diferentes estados, inclinações, disposições, porque está em contínua transição.
O indivíduo é um seguidor de regras. Para ele, bom e mau são simples denominações, cujos significados estabelecem-se convencionalmente. No conceito de representação consistente com esse ponto de vista, a imparcialidade substitui a verdade.

A sociedade é um sistema de regras de uma determinada espécie. Se o indivíduo aceita tomar parte nele, reconhece que sua conduta está limitada à órbita de um contrato. O bom cidadão obedece a prescrições externamente derivadas.

O perspectivismo

O indivíduo é levado a compreender que tanto a sua conduta quanto a conduta dos outros é afetada por uma perspectiva. Para comportar-se bem, o homem só tem que levar em conta as conveniências exteriores, os pontos de vista alheios e os propósitos em jogo. Todos têm o direito de pôr de lado os padrões morais das boas ações na perseguição dos interesses pessoais. O mercado é a força subjacente, geradora da visão perspectivista da vida humana associada.

O formalismo

Formalismo, ou maneirismo, é a disposição psicológica exigida por um tipo de política divorciada do interesse pelo bem comum, por um tipo de economia unicamente interessada em valores de troca, e por uma ciência, em geral, essencialmente definida por método e por praxes operacionais. A observância das regras substitui a preocupação pelos padrões éticos substantivos.

O comportamento é uma manifestação do maneirismo e é inteiramente capturado pelos critérios incidentais da arena pública. Seu significado exaure-se em sua aparência perante os outros. Sua recompensa está no próprio reconhecimento como adequado, correto, justo. Seu sujeito não é uma individualidade consistente, mas uma criatura fluida, pronta a desempenhar papéis convenientes.

Exposto a um mundo infiltrado de relativismo moral, o indivíduo egocêntrico sente-se alienado da realidade e, para superar essa alienação, entrega-se a tipos formalistas de comportamento, isto é, sujeita-se aos imperativos externos segundo os quais é produzida a vida sociais. Ele está basicamente interessado na aprovação social. A única recompensa da boa conduta é o louvor público. Para ele, não há a boa conduta por si só. O homem não age, propriamente, mas comporta-se, isto é, é inclinado a conformar-se com as regras eventuais da aprovação social.

O operacionalismo positivista

O operacionalismo, como é entendido atualmente, tenta responder à seguinte pergunta: Como avaliar o caráter cognitivo de uma afirmação? Há duas respostas básicas para esta pergunta, e uma delas admite a existência de diversos tipos de conhecimento (tal como o metafísico, o ético, o físico), cada um dos quais requerendo normas específicas de verificação.

Todavia, há aqueles que alegam que apenas as normas inerentes ao método de uma ciência natural de características matemáticas são adequadas para a validação e a verificação do conhecimento. Esta última resposta constitui a essência daquilo que aqui é rotulado de operacionalismo positivista.

Para um operacionalista, um conceito nada mais é que um conjunto de operações. A receita de um bolo define o bolo. Apenas aquilo que pode ser fisicamente medido ou avaliado merece ser considerado como conhecimento. Esta é uma das razões pelas quais, nos meios operacionalistas, a palavra metafísica é carregada de conotações pejorativas. Dizer que uma afirmação é metafísica equivale a descartá-la por não ter sentido.

O operacionalismo positivista é permeado de uma orientação controladora do mundo e, desse modo, induz o pesquisador a enfocar seus aspectos suscetíveis de controle. O aparelho conceptual para abordar a realidade tem que ser derivado, por força, da matemática. Na realidade, a matemática moderna leva em conta, na natureza, apenas aqueles aspectos que podem ter expressão quantitativa. Em geral, os físicos clássicos consideram esses aspectos como as únicas qualidades e declaram secundárias (isto é, invenções da imaginação) quaisquer outras qualidades que a mente conceba. Dessa forma, conceitos de alta ordem, como aqueles que constituem a matemática moderna, determinam quais as coisas do mundo que devem ser entendidas como reais ou irreais.

Hobbes aceita a doutrina de Galileu e Newton, afirmaria que a “filosofia civil” (conceito hobbesiano que deu origem às modernas ciências política e social) é, necessariamente, física social de determinado tipo, e que o problema da ordem nos negócios humanos só admite uma solução mecânica. Uma vez que as noções de bem e de mal, e todas as virtudes e sentimentos pertencentes ao domínio da ética, assumem o caráter de qualidades secundárias, o planejamento de uma boa sociedade equivale ao planejamento de um sistema mecânico, em que os indivíduos são engrenados, por instigações exteriores, para suportar as regras de conduta necessárias para manutenção da estabilidade desse sistema.

Coerente com essa orientação é a assertiva de Francis Bacon, de que “aquilo que é o mais útil na operação, é o mais verdadeiro no conhecimento” (Bacon, 1968, apud GUERREIRO RAMOS, 1981, p.65). É nesse sentido que o que deturpa o operacionalismo é sua identificação do útil com o verdadeiro. Utilidade é uma noção cheia de ambiguidade ética. Em si mesmo, aquilo que é útil pode servir para ser tanto eticamente sadio quanto eticamente errado no domínio social e, desse modo, o papel do operacionalismo em ciência social deveria ser eticamente qualificado. Isso é precisamente o que Hobbes e os cientistas sociais convencionais, de modo geral, deixam de fazer. Despojaram a utilidade de seu caráter eticamente ambíguo, legitimando como normas gerais aquilo que é útil ao sistema social para o controle dos seres humanos que dele participam.

Outra característica do operacionalismo positivista influi na síndrome do comportamento: a recusa em reconhecer às causas finais qualquer papel na explicação do mundo físico e social. Sua inferência é a de que as coisas são, simplesmente, resultados de causas eficientes, sendo o mundo inteiro um encadeamento mecânico de antecedentes e consequentes. Essa conjectura é um componente sistemático da doutrina de Galileu, Newton, Laplace, e de todos aqueles que concebem a ciência social como uma extensão da ciência física clássica.

Hobbes afirma, corajosamente, que “nada começa por impulso próprio, mas por força da ação de algum outro agente exterior” (Hobbes, 1840 apud GUERREIRO RAMOS, 1981, p. 67). Ele concebe o universo como uma ordem mecânica, cuja compreensão requer um raciocínio de natureza matemática, um cálculo que consiste, essencialmente, em soma ou subtração. Mesmo Deus não escapa ao peso da necessidade mecânica. “Deus”, diz ele, “não faz todas as coisas que pode fazer, se quiser; mas que possa querer aquilo que não tenha querido por toda a eternidade, isso eu nego” (Hobbes, 1841 apud GUERREIRO RAMOS, 1981, p. 67). Na terminologia da presente análise, isso equivale a dizer que Deus e os seres humanos não agem. Podem apenas comportar-se. O mundo vai-se desdobrando de acordo com um esboço já estabelecido e para toda a eternidade. Não existe criatividade no universo mecanomórfico de Hobbes.

A ciência do homem e da sociedade, de Hobbes, modelada segundo a física clássica, embora sob formas atenuadas, ainda tem influência, hoje em dia, entre estudiosos e praticantes da ciência do comportamento, da pesquisa operacional e de determinados tipos de análise de sistemas e planejamento.

A nova ciência contemporânea

As descobertas da ciência contemporânea mostram que essa concepção de causalidade é insustentável. Por exemplo, a certeza na predição do processo das coisas é admitida como teoricamente possível na idéia mecanicista de causalidade, enquanto o princípio da incerteza, de Heisenberg, empiricamente provado, significa que as coisas têm seus fins próprios, que as dotam de certa capacidade de autodeterminação. São, realmente, afetadas por antecedentes no sentido de que, não existindo abstratamente, têm que se apropriar dos dados fornecidos pelo mundo, mas tal apropriação não deve ser explicada como uma acomodação passiva a circunstâncias externas; é um processo seletivo, de exclusão e inclusão de dados, de acordo com os objetivos particulares das coisas. Na linguagem de Whitehead, as coisas estão continuamente fazendo a preensão de dados, na concretização de seus padrões intrínsecos.

Há dois princípios inerentes à própria natureza das coisas, que aparecem sempre em algumas corporificações particulares, seja qual for o campo que explorarmos — o espírito de mudança e o espírito de conservação. Nada pode ser real sem ambos. A mera mudança sem conservação é uma passagem do nada para o nada. A mera conservação sem mudança não pode conservar. Porque, afinal de contas, há um fluxo de circunstância e a frescura de ser se evapora sob a mera repetição. O caráter da realidade existente é composto de organismos perdurando através do fluxo das coisas (WHITEHEAD, 1967 apud GUERREIRO RAMOS, 1981, p.55).

No polo oposto ao ser humano que cede aos padrões sociais e organizacionais e abandona a ação para simplesmente se comportar, há o bom homem – categoria principal da nova ciência humana de Guerreiro Ramos – nunca inteiramente socializado, um ator sob tensão, cedendo ou resistindo aos estímulos sociais com base em seu senso ético. Assim, a ciência contemporânea restabelece a causa final no domínio físico e social.

O mercado nunca poderá criar uma boa sociedade. Esta só poderá existir como consequência das deliberações de seus membros em busca de uma configuração ética, substantiva de vida associada.

Uma teoria científica da organização não se baseia em sistemas cognitivos inerentes a qualquer tipo de organização existente, mas antes faz a avaliação das organizações em termos da compreensão da conduta geralmente adequada a seres humanos, levando em consideração tanto requisitos substantivos como funcionais (GUERREIRO RAMOS, 1981, p.50).

Guerreiro Ramos conclui assim sua crítica dos alicerces psicológicos da ciência social que predomina atualmente. No entanto, uma questão fica em aberto: quais seriam as bases psicológicas para a nova ciência humana e das organizações? O homem parentético, o bom homem, a perduração, todas parecem ser pistas para preencher esta lacuna com um estudo interdisciplinar que envolvesse paradigmas psicológicos alternativos ao comportamentalismo.

“Um homem é destinado à associação política, num nível superior àquele em que as abelhas ou outros animais gregários jamais poderão estar associados” (Aristóteles, Política 1.253a, § 10), Em consonância com essa afirmação, salientou ele também que um bom homem não é, necessariamente, um bom cidadão. O que é enfatizado por Aristóteles é o fato de que o bom homem é, sobretudo, guiado pelo que se qualifica aqui como razão substantiva, comum a todos os homens, em qualquer momento e em qualquer lugar, e que não deve ser considerada coincidente com padrões particulares de qualquer sociedade determinada (GUERREIRO RAMOS, 1981, p.61).

REFERÊNCIA

GUERREIRO RAMOS, Alberto. A nova ciência das organizações. Rio de Janeiro. FGV, 1981.
(Imagens por Les Chatfield e Historic American Buildings Survey, National Park Service)

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