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Mater Dolorosa

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As cinzas de Irene Ribeiro de Castro Siqueira sendo espalhadas por Nara Rosa, uma de suas bisnetas.

Mater Dolorosa

por Irene Ribeiro de Castro Siqueira*

Estou a vê-la ainda… o cabelo tocado para o alto, num coque, lembrando um penteado de seu tempo de moça, seu riso alegre que mostra a gengiva roxa e a simetria exagerada de seus dentes artificiais…

É um riso manso, riso de eterna conformação com a vontade de Deus. Depois de cada risada, vem seu próprio comentário:
– Gente, eu me rio é de sem-vergonha – não há em minha vida motivo de riso, só há motivos para lágrimas, mas eu me rio assim mesmo, rio de sem-vergonha…

Nos meus maus momentos, nesses dias cinzentos em que chego a ter pena de mim mesma, a lembrança de Siá Maria, do seu riso manso, me consola.

Nascida e criada na vizinhança de uma velha igreja, a devoção a Nossa Senhora parece que lhe marcou a vida numa semelhança de sofrimentos com a Virgem das Dores.

Estou a vê-la: sua devoção, sua vida, sua história. A mocidade feliz ao lado do tio que a adorava, o casamento pomposo (um dia, chegou a descrever-me o luxo de seus vestido de noiva, os enfeites e a complicada armação da saia), a felicidade dos primeiros dias, nada poderia indicar a coroa de dores que a esperava.

Com o decorrer do tempo, as crianças foram chegando, uma após outra – houve uma variedade de nomes para os meninos, porém, as meninas trouxeram todas a marca da devoção da mãe: Maria Raquel, Maria de Lourdes, e outras Marias a encher-lhe os dias de trabalhos e o pensamento de problemas.

Era necessário muita ginástica para atender às necessidades mínimas da casa com os parcos ganhos do marido. Siá Maria levantava-se cedo, corria à igreja próxima, recomendava todos os seus e de volta, tocava a trabalhar.

Não houve verbo da nomenclatura doméstica que ela não tivesse conjugado em todos os tempos e modos: aprontar os mais velhos para a escola, olhar os pequeninos, coser, lavar, cozinhar, passar a ferro etc.

Havia um balaio, um enorme balaio de taquara preso com cordas às vigas da velha cozinha; ali sobre um colchão de palha, naquele berço improvisado, repousava sempre o último rebento da numerosa família. Lidando com suas panelas, com sua bacia de roupa ou com o ferro de engomar, quando Siá Maria ouvia o choro da criança, corria lá, iludia-a com um balanço do berço e com muitas palavras ternas e lá continuava a criancinha, olhando com seus olhinhos inocentes o teto enegrecido da cozinha.

À noite, depois de acomodar as crianças, verificar os ferrolhos das portas e janelas, Siá Maria fazia as suas orações e deitava-se. Quando não havia os prementes e imediatos problemas do dia seguinte como o pagamento de uma conta ou a doença de uma das crianças, o cansaço não a impedia de ficar acordada e sonhar…

Não sei se aquele poeta que escreveu “Ser mãe (é?) desdobrar fibra por fibra o coração etc., etc.” incluiu em seu soneto “Ser mãe é sonhar”. Se não incluiu, o soneto ficou incompleto porque ser mãe é, sobretudo, sonhar.

Siá Maria não fugia à regra – à noite, na cama dava corda a sua imaginação: para cada filho, um projeto.

Às vezes era tão intenso o seu sonho, via-o tão misturado à realidade, que sentia necessidade de comunicá-lo a alguém, de comentar, e então, acordava o marido:
– Francisco, olhe, escute aqui. Você já reparou na Maria Raquel, como a menina está crescendo e ficando bonita? Já viu como o filho do açougueiro olha para ela?

O marido, mais prático, menos humano, mal prestava atenção às palavras da esposa:
– Durma, Maria, durma, você está cansada. Deixe de ver miragens.

No entanto, a mulher continuava o seu sonho: o namoro da filha com o vizinho, o casamento, a felicidade, os netos…

E para Zezinho, que já se destacava nas aulas de música como bom flautista, o que não sonhava ela… Via-o homem, admirado por todos, fazendo muito dinheiro, excursionando pelo país, e voltando pra casa com muitos presentes para ela, para as crianças, para o marido.

* * *

O mês de maio era para ela o mês mais bonito do ano – mês das ladainhas, das coroações, mês de Nossa Senhora.

Durante o mês inteiro ela e as filhas mais crescidas juntavam suas vozes às do coro em louvores a Maria.

Na hora da incensação, porém, a voz de Siá Maria se destacava, sozinha, num solo:

“Tota pulcra es, Maria,
et macula originalis non est in te”

A assistência toda se comovia, ouvindo aquela voz, vendo aquele exemplo.

Depois do solo, Siá Maria apurava o ouvido, buscando escutar entre todas as vozes do coro as de suas queridas filhas, sobretudo, a de Maria Raquel, que, no fundo, lhe agradava mais que as outras.

Um ano, em maio, a cidade se alvoroçou: cartazes colados às paredes anunciavam a vinda de um circo, com todo o seu cortejo de atrações: palhaços, leões, panteras, acrobatas e moças bonitas.

As crianças rodearam a esração para ver desembarcarem os bichos, antegozando as cenas que desfrutariam depois; as moças admiraram a elegância do domador, seus cabelos negros, seus olhos profundos e misteriosos; os rapazes só tinham olhos para as bailarinas, que, numa pintura exagerada, deixavam entrever facilidades que os ingênuos não compreendiam ser apenas uma propaganda comercial.

Nas noites seguintes, o circo, armado em frente a casa da Siá Maria, atraia grandes e pequenos com a sua música, suas feras, suas gulodices: pipocas, pastéis, e sombrinhas de papel cheias de doces.

Maria Raquel chegava a casa vibrando – descrevia as façanhas do domador com tanto entusiasmo, com tanto calor, que despertou no coração da mãe uma interrogação:

Que haverá com essa menina, Meu Deus? Que lhe estará passando pela cabeça?

* * *

Assim os dias iam correndo entre os comentários dos espetáculos, das coroações, dos leilões de prendas.

Na manhã em que o circo partiu, uma bomba estourou na cidade: Maria Raquel, esquecendo os rígidos princípios da moral que sua mãe lhe ensinara, fora-se em companhia do domador.

Nessa noite, na ladainha, muita gente chorou ao ouvir a voz de Siá Maria:
“Tota pulcra es, Maria…”

E a pobre mãe, avassalada pela dor, não ouviu entre as vozes do coro, a voz querida de sua Maria Raquel.

A vida continuou da mesma maneira naquela casa – Siá Maria tinha o mesmo sorriso manso, apesar de sua dor.

* * *

Uma noite, uma bala perdida, conseqüência de uma briga num bar próximo, atingiu Zezinho, que, na hora, passava por ali. Siá Maria viu o corpo de seu flautista entrar pela casa a dentro carregado por estranhos, pobre vítima, imolada inocentemente pelo ódio dos outros.

A pobre mulher mais uma vez uniu sua dor à de Nossa Senhora e cortou outro capítulo de seus sonhos; se há muito deixara de incluir neles o casamento de sua filha mais velha, agora não contava mais com as excursões artísticas de seu Zezinho.

Mas, havia os outros que ali estavam a exigir seus cuidados, seu amor, a povoar seus sonhos.

Sim, ali estavam eles, a exigir seus cuidados, a experimentar sua inesgotável capacidade de sofrimento.

Roberto havia surgido de repente com uma tosse, uma falta de apetite, um desânimo horrível.

Siá Maria dizia para si: coitado do meu filho; seu trabalho é muito penoso – entregando pão, nessas manhãs chuvosas, com certeza apanhou um resfriado muito forte e está ressentindo-se disso.

Quando o rapazinho se deitava, lá ia ela levar-lhe um chazinho de folhas de laranjas, um comprimido, às vezes, um pouco de leite queimado e sempre muita ternura.

Mas a gripe resistia a tudo. Roberto não podia ir mais ao trabalho, emagrecia, definhava. A mãe, numa loucura suprema de amor, negava-se a encarar a realidade dos fatos.

Quando veio o médico, este apenas disse:
– É tarde, é muito tarde; se me tivessem chamado mais cedo, talvez os remédios e um regime alimentar adequado o teriam salvado, mas agora…

E abanava a cabeça de maneira significativa, sentindo-se impotente para deter a marcha da doença, já tão avançada.

Siá Maria viu partir para sempre o seu Roberto. A promiscuidade em que viveu com os irmãos, as limitações impostas por um orçamento por demais apertado, tudo isso contribuiu para que a “via crucis” da pobre mãe não parasse ai.

Depois de Roberto, lá se foram o Luís e a Maria de Lourdes.

* * *

Muitos meses de maio têm passado… Nunca, porém, se deixou de ouvir a voz de Siá Maria louvando e festejando Nossa Senhora; nunca se ouviu de sua boca uma queixa, nem se viu partir dela um gesto de revolta.

Hoje, com os cabelos quase brancos, luta com uma úlcera no estômago, mas ainda sonha felicidades para os três filhos que lhe ficaram.

Quando a encontro, tem sempre o mesmo sorriso manso, tem sempre uma palavra amiga para mim, uma reminiscência para contar-me. E quando essa reminiscência às vezes a faz rir, provoca o seu infalível comentário:
– Minha filha, eu rio é de sem-vergonha, não tenho motivos para rir, em minha vida só há motivos para chorar…

… E agora, ao escrever, parece-me que ainda estou a vê-la: seu coque, seu sorriso manso. Pobre mártir, pobre Mater Dolorosa!

* Irene Ribeiro de Castro Siqueira (1923-2016): nascida em Itapecerica, Minas Gerais, foi professora, advogada, servidora pública, mãe, avó, bisavó… e também escritora! Leia também “Boa Viagem“, da mesma autora.

Esse post é uma homenagem a minha querida avó Nena. Ela viveu uma vida plena e repleta de alegrias e conquistas e esteve ao lado do amado Américo por quase 62 anos, segurando na sua mão até o último dia de sua vida. Me sinto honrado de ter convivido com ela e ter tido a sorte de nascer seu neto.

A Vó Nena dava muita importância para a família, sempre fez questão de promover encontros dos filhos e netos. Muita bênção podermos nos despedir dela dessa forma, juntos em família. Ela estará para sempre conosco, 4 filhos, 8 netos e 5 bisnetos (por enquanto) e junto de todos e todas que tiveram o privilégio de conviver com ela. Viveu plenamente e descansou em paz, sem ter visto nenhum de seus descendentes falecer. Gratidão, vó Nena. Descanse em paz.

Família de Irene Ribeiro de Castro Siqueira se reuniu para se despedir da matriarca.

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