
por Frei Betto*
Escrevi esta versão do Pai-Nosso para os retiros dos grupos de oração que acompanho há 29 anos. Procurei dar um toque poético para permitir que seja rezado em forma de meditação louvativa e penitencial.
Pai-nosso que estais no céu, e sois nossa Mãe na Terra, amorosa orgia trinitária, criador da aurora boreal e dos olhos enamorados que enternecem o coração, Senhor avesso ao moralismo desvirtuado e guia da trilha peregrina das formigas do meu jardim,
Santificado seja o vosso nome gravado nos girassóis de imensos olhos de ouro, no enlaço do abraço e no sorriso cúmplice, nas partículas elementares e na candura da avó ao servir sopa,Venha a nós o vosso Reino para saciar-nos a fome de beleza e semear partilha onde há acúmulo, alegria onde irrompeu a dor, gosto de festa onde campeia desolação,
Seja feita a vossa vontade nas sendas desgovernadas de nossos passos, nos rios profundos de nossas intuições, no vôo suave das garças e no beijo voraz dos amantes, na respiração ofegante dos aflitos e na fúria dos ventos subvertidos em furacões,
Assim na Terra como no céu, e também no âmago da matéria escura e na garganta abissal dos buracos negros, no grito inaudível da mulher aguilhoada e no próximo encarado como dessemelhante, nos arsenais da hipocrisia e nos cárceres que congelam vidas.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje, e também o vinho inebriante da mística alucinada, a coragem de dizer não ao próprio ego e o domínio vagabundo do tempo, o cuidado dos deserdados e o destemor dos profetas,
Perdoai as nossas ofensas e dívidas, a altivez da razão e a acidez da língua, a cobiça desmesurada e a máscara a encobrir-nos a identidade, a indiferença ofensiva e a reverencial bajulação, a cegueira perante o horizonte despido de futuro e a inércia que nos impede fazê-lo melhor,
Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido e aos nossos devedores, aos que nos esgarçam o orgulho e imprimem inveja em nossa tristeza de não possuir o bem alheio, e a quem, alheio à nossa suposta importância, fecha-se à inconveniente intromissão,
E não nos deixeis cair em tentação frente ao porte suntuoso dos tigres de nossas cavernas interiores, às serpentes atentas às nossas indecisões, aos abutres predadores da ética,
Mas livrai-nos do mal, do desalento, da desesperança, do ego inflado e da vanglória insensata, da dessolidariedade e da flacidez do caráter, da noite desenluada de sonhos e da obesidade de convicções inconsúteis,
Amemos.
*Frei Betto, 64, frade dominicano e escritor, é assessor de movimentos sociais e pastorais e autor do romance sobre Jesus “Entre Todos os Homens” (Ática), entre outros livros.
Leia também:
Pai Nosso, por Gabriel Dread
Gabriel, amigo,
Que lindo Pai Nosso. Gostei muito. Abraço
“(…)o vinho inebriante da mística alucinada(…)” – que maravilha de texto, que maravilha.
Belas palavras e bem apropriadas a humanidade atual.
Abrem as mentes a entender melhor a oração.
Gabriel, tomei a liberdade de imprimir e carregar comigo. Posso? :=))) Adorei!! Beijus
@cova-do-urso: Valeu António! Também achei…
@Palavras de Osho: maravilha mesmo! Divina!
@Rosana: acredito que o poder da oração pode transformar o mundo… com certeza!
@Luma: Imprima, repasse, divulgue… ore!
Acho o máximo o facto de já ter visto 2 posts teus colocados às…
11:11!
O último sobre meditação – este – (ando obcecada por este tema ultimamente, embora só a tenha feito uma vez. Ando a pensar que se calhar era uma coisa que deveria fazer sempre – mas neste momento estou na fase de “recolha de informação”).
Este número: 11:11 é fundamental para mim. A.. 11/11/2004 fiz uma grande mudança alimentar na minha vida e é ainda um marco fundamental para mim. Lembro-me também que houve uma época em que só via 11:11, ou 11, por todo o lado!
O meu blog, se tiveres curiosidade: http://www.escrita.blogspot.com
Cheguei cá através da Cova do Urso, o blog de António Rosa.
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