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TAZ! Zona Autônoma Temporária, de Hakim Bey

Hakim Bey - Peter Lamborn Wilson

“Assim que a ‘Revolução’ triunfa e o Estado retorna, o sonho e o ideal já estão traídos. Não deixo de ter esperança, nem deixo de ansiar por mudanças – mas desconfio da palavra Revolução.”

Hakim Bey

Hakim Bey (nascido Peter Lamborn Wilson) é escritor, ensaísta e poeta que se intitula como um anarquista ontológico sufi. Seu livro T.A.Z.: Zona Autônoma Temporária, escrito em 1985 e publicado sob o copyleft – nenhum direito reservado –, foi amplamente reconhecido no mundo anarquista e influenciou muitos movimentos autônomos, incluindo os hippies, os piratas do Caribe, o território autônomo de Rojava, o bairro de Christiania, Occupy Wall Street, acampamentos do MTST e as ecovilas e até as manifestações contra o encontro da Organização Mundial do Comércio em Seattle em 1999.

Aproveitando que é copyleft, você pode baixar o pdf de T.A.Z.: Zona Autônoma Temporária, de Hakim Bey, clicando aqui.

Occupy Wall Street

A partir de estudos históricos sobre as utopias piratas, Hakim Bey descreve as TAZ como táticas sócio-políticas de criar espaços temporários que iludem e evitam as estruturas formais de controle. Ele não criou as Zonas Autônomas Temporárias, mas foi o primeiro a nomear o fenômeno.

Vila Pirata

Em T.A.Z.: Zona Autônoma Temporária, Hakim Bey investiga diversos exemplos da história e filosofia que sugerem que a melhor maneira de criar um sistema não-hierárquico de relações sociais é se concentrar no presente e em libertar a própria mente dos mecanismos de controle que foram impostos.

Na criação de uma TAZ – a sigla vem do título original em inglês, Temporary Autonomous Zone –, informação se torna elemento chave que se infiltra nas brechas dos procedimentos formais. Um novo território é criado, com limites tanto no espaço físico quanto no tempo.

Ocupação do MTST em São Paulo

Qualquer tentativa de permanência que vai além destes limites está fadada a deteriorar-se em um sistema estruturado que inevitavelmente asfixia a criatividade individual e coletiva.

NA TAZ, a possibilidade de criatividade é o verdadeiro empoderamento.

Hakim Bey nascido Peter Lamborn WilsonA TAZ é uma espécie de rebelião que não confronta o Estado diretamente, uma operação de guerrilha que libera uma área (de terra, de tempo, de imaginação) e se dissolve para se re-fazer em outro lugar e outro momento, antes que o Estado possa esmagá-la.

Uma vez que o Estado se preocupa primordialmente com a Simulação, e não com a substância, a TAZ pode, em relativa paz e por um bom tempo, “ocupar” clandestinamente essas áreas e realizar seus propósitos festivos.

Talvez algumas pequenas TAZ tenham durado por gerações – como alguns enclaves rurais – porque passaram despercebidas, porque nunca se relacionaram com o Espetáculo, porque nunca emergiram para fora daquela vida real que é invisível para os agentes da Simulação.

Hakim Bey, T.A.Z.: Zona Autônoma Temporária

Zona Autônoma Temporária é um bando nômade!

Woodstock Barracas

Em oposição à instituição familiar, que segundo Bey foi criada historicamente no período neolítico, como conseqüência da revolução agrícola, é apresentado como inspirador da TAZ o modelo clássico, paleolítico e mais primitivo de grupo da espécie humana: o bando.

O típico bando nômade ou seminômade de caçadores/coletores é formado por cerca de cinqüenta pessoas. Em sociedades tribais mais populosas, a estrutura de bando é mantida por clãs dentro da tribo, ou por confrarias como sociedades secretas ou iniciáticas, sociedades de caça ou de guerra, associações de gênero, as “repúblicas de crianças” e por aí adiante. Se a família nuclear é gerada pela escassez (e resulta em avareza), o bando é gerado pela abundância (e produz prodigalidade).

Hakim Bey, T.A.Z.: Zona Autônoma Temporária

Percebe-se aqui a convergência entre o conceito de isonomia de Alberto Guerreiro Ramos e de TAZ de Hakim Bey. Assim, uma Zona Autônoma Temporária permite que os indivíduos se organizem em bandos, isonomias, mesmo quando inseridos na sociedade centrada no mercado, fugindo ao controle da sociedade ou buscando brechas na mesma.

Zona Autônoma Temporária é um festival alternativo!

O Bando no Festival Woodstock: Joe Cocker no palco

Outra inspiração de Hakim Bey (1985) para propor a TAZ é a imagem de um festival, uma celebração que se situa fora do espaço-tempo regular e da normalidade. O conceito aqui é de que a autoridade e as estruturas formais se dissolvem em um convívio e na celebração, como em um festival.

Os antigos conceitos de jubileu e bacanal se originaram a partir da intuição de que certos eventos existem fora do “tempo profano”, a unidade de medida da História e do Estado. Essas ocasiões literalmente ocupavam espaços vazios no calendário – intervalos intercalados. Na Idade Média, quase um terço do ano era reservado para feriados e dias santos.
(…)
[Atualmente] A mídia nos convida a “celebrar os momentos da nossa vida” com a unificação espúria entre mercadoria e espetáculo, o famoso não-evento da representação pura. Em resposta a tamanha obscenidade, nós temos, por um lado, o espectro da recusa (…) e, por outro, a emergência de uma cultura festiva distanciada ou mesmo escondida dos pretensos gerentes do nosso lazer. “Lute pelo direito de festejar” não é, na verdade, uma paródia da luta radical, mas uma nova manifestação dessa luta, apropriada para uma época que oferece a TV e o telefone como maneiras de “alcançar e tocar” outros seres humanos, maneiras de “estar junto!”

Hakim Bey, T.A.Z.: Zona Autônoma Temporária

Christiania, festival no bairro hippie

Zona Autônoma Temporária é nomadismo psíquico!

O terceiro elemento que serve de gênese à TAZ é o conceito de nomadismo psíquico. Bey inspira-se em Deleuze e Guattari, na obra Tratado de Nomadologia, para definir o conceito de nomadismo psíquico como uma visão de mundo pós-ideológica e multifacetada, que se move, de maneira desenraizada, da filosofia para o mito tribal, da racionalidade utilitária para a intuição.

Mas essa visão foi alcançada às custas de se viver numa época na qual a velocidade e o “fetichismo da mercadoria” criaram uma unidade tirânica e falsa que tende a ofuscar toda a diversidade cultural e toda a individualidade para que “todo lugar seja igual ao outro”.

Este paradoxo cria “ciganos”, viajantes psíquicos guiados pelo desejo ou pela curiosidade, errantes com laços de lealdade frouxos (na verdade, desleais ao “projeto europeu”, que perdeu todo o seu charme e vitalidade), desligados de qualquer local ou tempo determinado, em busca de diversidade e aventura…

Essa descrição engloba não apenas artistas e intelectuais classe X, como também trabalhadores imigrantes, refugiados, os “sem-teto”, turistas, e todos aqueles que vivem em trailers – assim como pessoas que “viajam” na internet, sem talvez jamais saírem de seus quartos (ou aquelas como Thoreau, que “viajou demais – em Concord”), para finalmente englobar “todo mundo”, todos nós, vivendo em nossos automóveis, em nossas férias, aparelhos de TV, livros, filmes, telefones, trocando de emprego, mudando de “estilo de vida”, de religião, de dieta etc. etc.

Hakim Bey, T.A.Z.: Zona Autônoma Temporária

Há uma confluência entre o conceito de nômade psíquico de Hakim Bey e conceito de Anomia do paradigma paraeconômico de Guerreiro Ramos (1981). Desta maneira, as Zonas Autônomas Temporárias seriam espaços ou períodos de tempo que permitem que os indivíduos vivam a Anomia dentro da sociedade centrada no mercado, subsistindo à margem do sistema social desprovidos de regras ou raízes.

Ocupação do MTST em São Paulo

Zona Autônoma Temporária e o ciberespaço!

Por fim, o quarto elemento que serve de alicerce para as TAZ é o uso da web que Bey chama de anti-net. A TAZ necessariamente possui uma localização temporária, mas real, no tempo, e uma localização temporária, mas real, no espaço. Mas ela pode ter um local dentro da web, outro tipo de local: não real, mas virtual; não imediato, mas instantâneo.

Em 1985, Hakim Bey já conseguia prever que a web seria usada para articular movimentos autônomos!

A web não fornece apenas um apoio logístico à TAZ, também ajuda a criá-la. Bey afirma que a TAZ “existe” tanto no espaço da informação quanto no “mundo real”. A web pode compactar muito tempo, em forma de dados, num “espaço” infinitesimal.

A TAZ, por ser temporária, não oferece algumas das vantagens de uma liberdade com duração e de uma localização mais ou menos estável. Mas a web oferece uma espécie de substituto para parte disso – ela pode informar a TAZ, desde o seu início, com vastas quantidades de tempo e espaço compactados.

Nesse ponto da evolução da web, e considerando nossas exigências por algo que seja palpável e sensual, devemos considerar a web fundamentalmente como um sistema de suporte, capaz de transmitir informações de uma TAZ a outra, ou defender a TAZ, tornando-a “invisível” ou dando-lhe garras, conforme a situação exigir.

Porém mais do que isso: se a TAZ é um acampamento nômade, então a web ajuda a criar épicos, canções, genealogias e lendas da tribo. Ela fornece as trilhas de assalto e as rotas secretas que compõem o fluxo da economia tribal. Ela até mesmo contém alguns dos caminhos que as tribos seguirão só no futuro, alguns dos sonhos que eles viverão como sinais e presságios.

Hakim Bey, T.A.Z.: Zona Autônoma Temporária

Hakim Bey ou Peter Lamborn WilsonEm linhas gerais, são estes quatro elementos – o bando, a festividade, o nomadismo psíquico e a web – que influenciam o conceito de Zona Autônoma Temporária. Embora Hakim Bey (1985) tenha escrito uma obra inteira sobre TAZ, não é seu intuito definir e fixar formas, ou padrões de como seria uma destas zonas. Afinal, uma TAZ existe de forma dinâmica e temporária, fugindo portando de padrões e definições.

Visar à liberdade de todos serviu, por muitas vezes, como máscara de interesses particulares e opressores. Do que adianta acreditar que só há liberdade quando todos forem livres? Libertar-se, revolucionar pode partir de um indivíduo, ou de um bando. E é isso que poderíamos colocar como um princípio e possível objetivo da TAZ: liberdade independente e autônoma.

Hakim Bey, T.A.Z.: Zona Autônoma Temporária

Festival Burning Man

O Festival Burning Man é um exemplo recente de uma Zona Autônoma Temporária. Tribos se juntam no meio do deserto para viver comunidade temporária e festival por uma semana.

Depois de incendiar os principais monumentos criados no encontro, eles limpam tudo e não deixam resíduos.

Festival Burning Man

Outros exemplos de Zonas Autônomas Temporárias são acampamentos do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), o Ocuppy Wall Street e seus derivados, e até a batalha de Seattle de 1999, movimento histórico que uniu hippies e anarquistas e impediu que a reunião da Organização Mundial do Comércio acontecesse.

Batalha de Seattle Policia X Pessoas

Zona Autônoma Permanente e ecovilas!

Hakim Bey fala muito sobre o caráter temporários das TAZ. Mas será que as propostas de resiliência das ecovilas e da permacultura não podem resultar em Zonas Autônomas Permanentes? Em um artigo de 1993, Hakim Bey investiga a possibilidade de ZAP – Zonas Autônomas Permanentes.

Leia parte da introdução desse artigo abaixo.

Zona Autonoma Permanente

A teoria da Zona Autônoma Temporária (TAZ) busca tratar de situações existentes ou emergentes, mais que do utopismo puro. Por todo o mundo existem pessoas que estão deixando ou “desaparecendo” da Grade da Alienação e buscando formas de restaurar o contato humano. (…)

Não é só a “contra-cultura” quem busca suas zonas autônomas temporárias, seus acampamentos nômades e noites de liberação do consenso. Grupos auto-organizados e autônomos estão brotando entre todas as “classes” e “subculturas”. Vastas extensões do Império Babilônico estão agora vazias, povoadas somente pelos agentes secretos dos Meios de Massas e uns poucos policiais psicóticos.

zat

A teoria da zona autônoma temporária dá conta disto que ESTÁ ACONTECENDO – não estamos falando sobre o que “deveria” ou será – estamos falando de um movimento já existente. Nosso uso de uma série de meios reflexivos e experienciáveis – poesia utópica e crítica paranóica (etc.) pretende ajudar a clarificar este movimento complexo ainda em grande medida não documentado, dar-lhe algum foco teórico e consciência de si mesmo, e sugerir táticas baseadas em estratégias integralmente coerentes – atuar como parteira ou panegírico, e não como “vanguarda”!

Então tivemos que considerar o fato de que nem todas as zonas autônomas existentes são “temporárias”. Algumas são (ao menos nas intenções) mais ou menos “permanentes”. Certas rachaduras no Monolito Babilônico parecem tão vazias que grupos inteiros podem se mudar para elas e lá se instalarem. Certas teorias, como a “permacultura”, têm sido desenvolvidas para lidar com esta situação aumentando as possibilidades. “Vilas”, “comunas”, “comunidades”, incluindo aí “arcologias” e “biosferas” (ou outros modelos de cidade-utopia) estão sendo experimentadas e implementadas. Mesmo nesse contexto a teoria da TAZ pode oferecer algumas ferramentas de pensamento, esclarecimentos e úteis reflexões.

E se tratarmos de uma poética (um “modo de fazer”) e de uma política (uma “forma de viver juntos”) para a TAZ “permanente” (ou ZAP)? O que existe na relação atual entre a temporalidade e a permanência? E como pode a ZAP periodicamente renovar-se com o aspecto festivo da TAZ?

Hakim Bey, P.A.Z.: Zona Autônoma Permanente, introdução

Continue lendo ZAP.: Zona Autônoma Permanente, de Hakim Bey, clique aqui.

Assista o próprio Hakim Bey falando sobre a Zona Autônoma Temporária, Sufismo, ayahuasca e muito mais:

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