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São Paulo

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Sol Poente em Sampa

Nasci em Sampa (mais precisamente na maternidade Santa Catarina, em plena avenida Paulista) e morei lá por 24 anos da minha vida. Sinto um ambígüo amor/ódio pela minha terra natal. Mas sou imensamente grato pelas lições que aprendi vivendo na capital da Babilônia brasileira.

Eu me perdi na Selva de Pedra. Aprendi a sobreviver no ambiente mais hostil do planeta Terra para qualquer especie de ser vivo, sem excluir os seres humanos. (Tá, talvez eu possa excluir alguns paulistanos da categoria “ser vivo”).

São Paulo: vista da janela de um aviãoMas também me encontrei lá. Pela negação de tudo que eu acredito, de tudo que eu sinto que é mais sagrado para mim, São Paulo me ajudou a mostrar meu caminho neste mundo.

Me lembro, quando voltei da Chapada dos Veadeiros pela primeira vez, em 2002, que uma revelação surgiu para mim ao chegar em Sampa… um momento de epifania: “eu não posso viver com saúde nesta cidade”. Acho até que ninguém em sã consciência pode, mas afinal, somos todos loucos…

Meu ser ficou adormecido e entorpecido pelo caos paulistano por tanto tempo que eu me desconectei do meu verdadeiro ser, da minha natureza. Mas bastou eu sair daquela cidade para perceber isso, para despertar.

Eu ainda tentei ficar por lá mais alguns anos, na esperança de mostrar para meus amigos e para a minha família, para meus I-rmãos, que está tudo errado nesta cidade. Mas depois de alguns anos falando com as paredes, fui embora e resolvi demonstrar o que queria dizer através do meu exemplo, da minha vida.
Faz 3 anos que eu mudei de São Paulo para Floripa. Não me arrependo nem um pouco. Só me preocupo com o rumo que minha atual morada está tomando, seguindo afoita e avidamente os passos da metrópole de onde fugi para me encontrar.

São Paulo: noite na Babilônia

Mas agora, com a distância, minha relação com Sampa-city mudou bastante. As minhas visitas são muito boas, e consigo até manter minha luz brilhando durante toda a minha estadia. E compartilhar esta luz com os seres que eu amo e que por opção (ou por falta dela) ainda moram lá.

Duas músicas feitas em homenagem a São Paulo me emocionam profundamente. Resumem boa parte dos meus sentimentos em relação à megalópole mais amadadoentiafelizloucainfelizintensa deste planeta…
Segue então, São São Paulo, do primeiro album de Tom Zé, e Sampa, de Caetano Veloso [musicada por “Gilberto Gil e eu“]. Ironicamente, estes dois baianos [Tom Zé e Caetano] andaram brigando em público. Mas no fundo, sabemos que eles se amam.

São São Paulo – Tom Zé – 1968   

São São Paulo quanta dor
São São Paulo meu amor

São oito doze vinte e dois milhões de habitantes
De todo canto e nação
Que se agridem cortesmente
Correndo a todo vapor
E amando com todo ódio
Se odeiam com todo amor
São oito milhões de habitantes
Aglomerada solidão
Por mil chaminés e carros
Gaseados a prestação
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito

São São Paulo quanta dor
São São Paulo meu amor

Salvai-nos por caridade
Pecadoras invadiram
Todo o centro da cidade
Armadas de ruge e batom
Dando vivas ao bom humor
Num atentado contra o pudor
A família protegida
O palavrão reprimido
Um pregador que condena
Um festival por quinzena
porém com todo defeito
Te carrego no meu peito

São São Paulo quanta dor
São São Paulo meu amor

Santo Antonio foi demitido
E os ministros de Cupido
Armados da eletrônica
Casam pela tevê
Crescem flores de concreto
Céu aberto ninguém vê
Em Brasília é veraneio
No Rio é banho de mar
O país todo de férias
E aqui é só trabalhar
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito

São São Paulo quanta dor
São São Paulo meu amor

Sampa – Caetano Veloso – 1978

Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas

Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João

Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes

E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vende outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso

Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva

Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
Mais possível novo quilombo de Zumbi
E os novos baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa

Anexo: Contracapa do album Tom Zé (1968)

Somos um povo infeliz, bombardeado pela felicidade.
O sorriso deve ser muito velho, apenas ganhou novas atribuições.
Hoje, industrializado, procurado, fotografado, caro (às vezes), o sorriso vende. Vende creme dental, passagens, analgésicos, fraldas, etc. E como a realidade sempre se confundiu com os gestos, a televisão prova diariamente, que ninguém mais pode ser infeliz.
Entretanto, quando os sorrisos descuidam, os noticiários mostram muita miséria.
Enfim, somos um povo infeliz, bombardeado pela felicidade.(As vezes por outras coisas também).
É que o cordeiro, de Deus convive com os pecados do mundo. E até já ganhou uma condecoração.
Resta o catecismo, e nós todos perdidos.
Os inocentes ainda não descobriram que se conseguiu apaziguar Cristo com os previlégios.  (Naturalmente Cristo não foi consultado).
Adormecemos em berço esplêndido e acordamos cremedentalizados, tergalizados, yêyêlizados, sambatizados e miss-ificados pela nossa própria máquina deteriorada de pensar.
“-Você é compositor de música “jovem” ou de música “Brasileira”?”
A alternativa é falsa para quem não aceita a juventude contraposta à brasilidade.. (Não interessa a conotação que emprestam à primeira palavra).
Eu sou a fúria quatrocentona de uma decadência perfumada com boas maneiras e não quero amarrar minha obra num passado de laço de fita com boemias seresteiras.
Pois é que quando eu abri os olhos e vi, tive muito medo: pensei que todos iriam corar de vergonha, numa danação dilacerante.
Qual nada. A hipocrisia (é com z?) já havia atingido a indiferença divina da anestesia…
E assistindo a tudo da sacada dos palacetes, o espelho mentiroso de mil olhos de múmias embalsamadas, que procurava retratar-me como um delinqüente.
Aqui, nesta sobremesa de preto pastel recheado com versos musicados e venenosos, eu lhes devolvo a imagem.
Providenciem escudos, bandeiras, tranqüilizantes, anti-ácidos, antifiséticos e reguladores intestinais. Amem.

TOM ZÉ .

P.S.

Nobili, Bernardo, Corisco, João Araújo, Shapiro, Satoru, Gauss, Os Versáteis, Os Brazões, Guilherme Araújo, O Quartetão, Sandino e Cozzela, (todos de avental) fizeram este pastel comigo.
A sociedade vai ter uma dor de barriga moral
O mesmo

Fonte: Blog do Tom Zé, Site do Tom Zé, Blog do Caetano Veloso
Fotos: Série São Paulo, por Gabriel Dread, Irradiando Luz

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2 Respostas para “São Paulo”


  • luzdeluma / Responder

    Gabriel, sei como é! Um amigo de Sampa diz a mesma coisa: a cidade o sufoca. Eu também procurei por uma cidade menor. mas ela está crescendo! Não dá pra ficar pulando de cidade em cidade também. Por isso criei o meu mundo particular. Beijus


  • Gabriel Dread / Responder

    @Luma: Uau, seu próprio mundo particular! Incrível! Comofaz?
    Eu também mudei pra Floripa em busca de sossego, mas a Babilônia chegou primeiro… agora vejo a Ilha da Magia como um estágio passageiro, um porto seguro onde reúno forças para prosseguir para um lugar mais calmo e tranquilo, naturalmente…


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