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1.2 A resignação e os pontos de vista de Max Weber sobre a racionalidade

Fonte: RAMOS, Alberto Guerreiro. A Nova Ciência das Organizações – Uma reconceituação da riqueza das nações. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1989.

Quando Max Weber iniciou seu trabalho acadêmico, a velha noção de razão já tinha perdido a conotação normativa, que sempre tivera, como referência para a ordenação dos negócios pessoais e sociais. Por um lado, de Hobbes a Adam Smith e aos modernos cientistas sociais em geral, instintos, paixões, interesses e a simples motivação substituíram a razão, como referência para a compreensão e a ordenação da vida humana associada. Por outro lado, sob a influência do Iluminismo, de Turgot a Marx, a história substituiu o homem, como portador da razão. Contra tal situação, Max Weber permaneceu como uma figura solitária. Rejeitou tanto o rude empirismo britânico e o naturalismo dos cientistas sociais, quanto o determinismo histórico, principal característica de influentes pensadores alemães. (…) Mas Weber é descrito, freqüentemente, como verdadeiro crente na insuficientemente qualificada excelência da lógica inerente à sociedade centrada no mercado. No entanto, uma leitura cuidadosa de sua obra justifica diferente avaliação de seu pensamento, a propósito do assunto. Ele escreveu muito sobre o mercado como a mais eficiente configuração para o fomento da capacidade produtiva de uma nação e para a escalada de seu processo de formação de capital. Mas, ao voltar-se para o mercado e para sua lógica específica, é evidente que nenhum fundamentalismo mancha sua investigação. Em outras palavras, não era um fundamentalista, no sentido de que explicava o mercado e sua lógica específica como constituindo a síndrome de uma época singular: a história, segundo ele, não iria encerrar seu curso com o advento dessa época. Focaliza esses assuntos do ponto de vista da análise funcional e, na realidade, merece ser considerado o fundador da análise funcional. Autores modernos, como, por exemplo, Adam Smith, negligenciam o caráter precário da lógica de mercado, enquanto Max Weber a interpreta como um requisito funcional de um determinado sistema social episódico. Adam Smith procedeu como um fundamentalista, visto como exaltou a lógica do mercado como um ethos da existência humana em geral. Mas Weber, porém, descreve essa lógica (da qual a burocracia é uma das manifestações) como um complexo heurístico em afinidade com uma forma peculiar de sociedade – o capitalismo, ou a moderna sociedade de massa. Condena explicitamente qualquer tipo fundamentalista de análise econômica, que “identifica o psicologicamente existente com o eticamente válido” (Weber, Max. Methodology of social sciences. New York, The Free Press, 1969, p. 44).”Os defensores extremados do livre comércio concebiam (a economia pura) como um retrato adequado da realidade ‘natural’, isto é, da realidade não perturbada pela estupidez humana – e prosseguiam visando a estabelecê-la como um imperativo moral, como um válido ideal normativo – enquanto que ela é apenas um tipo conveniente, a ser usado na análise empírica” (Weber, 1969, p. 44). O julgamento que Max Weber fez do capitalismo e da moderna sociedade de massa foi essencialmente crítico, apesar de parecer laudatório. Chocava-se ante a maneira pela qual tal sociedade fazia a reavaliação do significado tradicional da racionalidade, processo que intimamente lamentava, embora tenha deixado de diretamente confrontá-lo. Muito embora Weber se tenha recusado a basear sua análise sobre a indignação moral, como fizeram outros teóricos, de forma notável, é um erro atribuir-lhe qualquer compromisso dogmático com a racionalidade gerada pelo sistema capitalista. A distinção que fez, entre Zweckrationalität e Wertrationalität – e que, é verdade, algumas vezes minimiza – constitui, possivelmente, uma manifestação do conflito moral em que se sentia com as tendências dominantes da moderna sociedade de massa. Como é amplamente sabido, ele salientou que a racionalidade formal e instrumental (Zweckrationalität) é determinada por uma expectativa de resultados, ou “fins calculados” (Weber, Max. Economy and society. New York, Bedminster Press, 1968, vol. 1, p. 24). A racionalidade substantiva, ou de valor (Wertrationalität), é determinada “independentemente de suas expectativas de sucesso” e não caracteriza nenhuma ação humana interessada na “consecução de um resultado ulterior a ela” (Weber, 1968, p. 24-5). Nessa conformidade, Weber descreve a burocracia como empenhada em funções racionais, no contexto peculiar de uma sociedade capitalista centrada no mercado, e cuja racionalidade é funcional e não substantiva, esta ultima constituindo um componente intrínseco do ator humano. (…) De modo significativo, [Weber] considerava “auto-enganadora” qualquer posição que “afirme que através da síntese de vários pontos de vista partidários, ou seguindo uma linha intermediária aos mesmos, seja possível chegar-se a normas práticas de validade científica” (o grifo é do original) (Weber, 1969, p. 58). Seu historicismo foi mantido em equilíbrio pelo forte sentimento pessoal de finitude dos conceitos científicos, em comparação com a “corrente infinitamente multiforme” (Weber, 1968, p. 92) da realidade.

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